Reticências I
O Rio de Janeiro tornou-se palco de guerra entre o Estado e os marginais traficantes de entorpecentes e armas. Sobra para os cariocas o medo; para os outros brasileiros, a perplexidade. Para mim, restam idéias desconexas e não traduzidas. No entanto, a principal atende pelo nome de… Paz!
Segundos
Saíra ela de um modesto escritório antes de começar seus passos pela calçada cheia de vendedores de cremes milagrosos e discos piratas. Ele curvara a esquina para a mesma calçada após se despedir de um amigo que tentava convertê-lo a sua fé.
Andavam ambos inquietos com os próximos passos. Preocupados a ponto de não reparar nas cores embaralhadas em paineis e outdoors mal-confeccionados ou na beleza oculta pelo acinzentado do céu que os cobria.
Ao aproximarem-se, seus olhos cravaram-se: os dela, grandes e azuis como o planeta Netuno; os dele, puxados e negros como a imensidão do infinito. Dois segundos… Então, cada um seguiu seu caminho, por onde o outro houvera passado. E a magia de segundos foi gravada com ferrete em suas almas.
Presente de Deus?
Dizem que ao batermos à porta da vida, Deus dá a todos nós um dom para ajudar-nos durante nossa existência. É o presente essencial da criação. Igual a você, tenho um também. Mas duvido que Deus tenha dado o meu. Arrepia-me até os pêlos do pensamento quando imagino quem fora o doador deste maldito dom.
Era um quarta-feira chuvosa e as ruas asfaltadas refletiam as luzes das lâmpadas de mercúrio dos postes. Em passos largos e rápidos, retornava de meu local de trabalho: uma marcenaria. Meus pensamentos vagavam entre as brincadeiras de meu casal de filhos – um de cinco anos, uma de três – e o sedutor corpo moreno da minha esposa. Estamos casados há sete anos e – com o perdão da palavra – felizes.
Quando minha casa erguia-se no horizonte molhado, o telefone toca: número não identificado. Na linha, uma voz desconhecida pedia-me um favor, em troca de dinheiro: equivalente a dois anos de entalhamento de madeira. Recusaria, porque Jesus Cristo não aprovaria aquele ato, entretanto, é o que faço de melhor. E não há alguém melhor nisto do que este quem vos escreve. O isto ficou marcado para o próximo dia.
Cai a noite de quinta-feira, não mais chovia. O dinheiro já encontrava-se corrente na conta bancária. Arma silenciada preparada, assim como o transporte de fuga. Observava de ponto distante – devidamente disfarçado – quando chega o homem inofensivo àquele boteco. Pediu uma cerveja. Reclamou que estava quente. Ainda teve tempo de tomar três goles da bebida antes de debruçar-se ensanguentado sobre a mesa plástica. Apenas um tiro: morte súbita.
Sem luxos de nervosismo ou arrependimento, abandonei a moto adulterada da fuga em local de difícil acesso. Um táxi me levara até em casa. Fui ao banho, onde concebi o primeiro parágrafo do presente texto. Quando saí, as crianças já dormiam. Chameguei na esposa para nos divertir com o episódio da Grande Família. Meia hora de amor, e adormecemos, sabendo que às 6h da manhã, o dia-a-dia continua.
Paradise
Após o almoço no saboroso restaurante, saí para andar à beira-mar. O sol abrasador era refresco. Entre uma e outra praia, tinha de subir em pedras e embrenhar-me em capoeiras. A maré subia suavemente. Quando a tarde despedia-se com um fantástico mergulho do sol no oceano, notei a impossibilidade de seguir ou voltar. Estava perdido no paraíso.
Ao longe, identifico curvas esculturais em uma linda moça olhando o mar. “Oi” e ela alega saber como sair dali. Por estradas desertas e penumbrosas, seguimos a pé. O papo entre aquele sotaque goiano e este, situado entre baiano, mineiro e capixaba, compunha uma bela trova.
Após uns 20 minutos de caminhada, chegamos ao seu carro – um buggy, na verdade. Encontrava-me longe da pousada, mas não aceitei carona. Minha bicicleta estava a mais uns minutos dali. Despedimo-nos e marcamos mais tarde no bar da Vila. Mais seis quilômetros de bike por estradas acidentadas, cheguei onde estava hospedado.
Ao adentrar o boteco com duas horas de atraso, fui recepcionado por um respladecente sorriso dela. Eram quatro garotas naquela viagem. Era apenas eu. Tive ajuda de novas amizades nativas para entreter as outras meninas. Entre umas e outras, convidei-a para bailar. Dançamos de salsa a maracatu. Outra dança, desta vez sob edredons, fizemos até de manhã… Em várias manhãs.
PS: em alusão a um grande blogueiro: se me questionarem sobre o fato, eu nego.
Samba da Bolinha de Papel
Não ia mais postar sobre eleições aqui no Blog, porém, em meio a tanto ódio destilado por todos os lados, aparece alguém a compor alegres versos de samba sobre a atual situação. Segue o vídeo abaixo.
Via: Blog do Luís Nassif
Razões de votar
“Deixo claro que a firmeza do meu canto vem da certeza que tenho, de que o poder que cresce sobre a pobreza e faz dos fracos riqueza, foi que me fez cantador”, com este verso da canção Terra Plana, primeira faixa do disco Canto Geral (1968), de Geraldo Vandré, começo a redigir este texto.
Enfim, faltam poucos dias para que se consume o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras. Por estarmos em uma democracia – a duras penas conseguida – não tenho obrigação de dizer em quem votarei ou deixarei de votar. Mas pela mesma democracia, o objetivo deste texto é deixar claras as razões de meu voto.
Paixões ortográficas
Não é muito espaçado o tempo de sermos alvejados por uma peguete com a seguinte pergunta: qual o tipo de mulher ideal para você? Na resposta, como toda pessoa que deseja viver bem em sociedade, apelamos à hipocrisia: tem de ter o cabelo igual ao seu, os olhos lindos iguais ao seus, ser inteligente e bonita como você, entre outras mentirinhas brancas.
Já pensei sobre o que realmente quero em uma mulher. Cheguei a uma conclusão: bonita e gostosa, inteligente, cheirosa, entre outras qualidades que as mulheres não podem saber. Porém, ao analisar a sentença anterior, percebemos que todos os homens querem uma moça assim. Acho que aprendemos essas palavras desde o berço; do DNA, até. A iminente verdade é que não há equação para explicar o que a mulher deve ser ou ter para atrair os homens.
Após enrolar dois parágrafos a escrever banalidades introdutórias, entro no fato motivador do texto. Há alguns dias, remexia velharias em casa. A alergia – a qual não tenho – já começava a reagir à atmosfera de poeira instalada. Então, encontrei artefatos interessantes os quais já tinham a existência ignorada por mim, entre eles um papel dobrado com alguns corações desenhados em caneta hidrocor vermelha.
Abri. Era uma cartinha de amor enviada para mim há mais de cinco anos. A antiga peguete não chegou a ser minha namorada, embora fosse linda. Perguntei-me o porquê de não ter namorado aquela beldade. Entendi ao ler as palavras. Ou tentativas de palavras. Poucas vezes em minha vida, vi tantos erros de português em um pedaço de papel. Por pouco, não precisei mandar a carta para um egiptólogo traduzi-la.
Deste fato passado, devemos entender que ortografia correta é essencial para um relacionamento? Claro que não. Mas ele pode demonstrar muito da inteligência e perspicácia de uma pessoa. Afinal, se não sabe escrever direito, menina, tome termo: arranje outras formas de declarar seu amor. Tem tantas maneiras melhores.
#Boladepapelfacts inspira tucanos
Que este segundo turno das eleições está uma autêntica tradução da palavra putaria, a maioria deve saber; e se não sabe, ao menos imaginar. Nem me atrevi ainda a escrever sobre ele por medo de baixar o calão de minhas suaves palavras. Mas estas imagens aqui não podem ficar impublicadas. A bolinha de papel inspirou os marqueteiros e militantes do PSDB, os quais fizeram a seguinte alegoria sobre o episódio histórico nas eleições do Brasil.

Algo sobre Marina Silva…

Esperei passar o primeiro turno para redigir este texto. Sou como a maioria: começo o texto a dizer que admiro a trajetória pessoal e política de Marina Silva. Uma grande personalidade brasileira, embora não tenha contado com meu voto. Quando soube da candidatura dela à presidência, minha primeira reação foi declarar um voto a ela. Mas daí surge nas linhas posteriores da notícia o partido pelo qual ela se candidataria: Partido Verde.
Para mim, o PV é um aglomerado de intelectuais e riquinhos – verdes, é claro – que defendem a Amazônia, são contra o desmatamento, contra o CO2, mas que têm nojinho de esterco. Mas, que seja. É um partido que – em teoria – combina com o pensamento de conservação natural de Marina – mais até que aquele no qual ela cresceu politicamente, o PT.
Foi aí que a ficha começou a cair: Marina seria apenas uma laranja no jogo eleitoral. Laranja para levar José Serra ao segundo turno. Não sei se ela aceitou este papel ou se nem percebeu, devido ao cotidiano eleitoral. O fato é que nos últimas semanas da campanha do primeiro turno, Marina despertou uma personalidade política que lhe angariou vários pontos percentuais na votação. Ela levou Serra para o novo turno, mas ela que gostaria de ir. Ao final, deixou seu papel de laranja e queria ganhar a eleição.
Com quase 20% dos votos, Marina ficou maior que o PV. O partido, de elite simpatizante a Serra, quis apoiá-lo. A força de Marina Silva – cria do PT – fez os verdes ficarem neutros na eleição do segundo turno. Parece que Marina não está feliz com o PV. Deve ter percebido o que seu partido tentou fazer com ela. Escutei rumores sobre ela pretender criar um novo partido e fazer oposição moderada ao novo presidente. Desta forma, ela pode pavimentar uma via competitiva para as eleições de 2014 e 2018. E, a depender da via, poderá ter meu voto, enfim.



